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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

As diferenças ajudam a manter a diversidade

Outro dia falei da agressividade entre as abelhas sem ferrão, o que acaba fazendo com que espécies com estratégias diferentes visitem mais um tipo de planta, de acordo com quantidade de flor e distribuição dos indivíduos dessas plantas. Fiquei com medo de isso virar uma justificativa pra saírem por aí matando abelhas, então resolvi falar um pouco mais sobre fatores que ajudam a manter todas as abelhas coexistindo e sobrevivendo, mesmo que haja conflitos.
Além do tipo de distribuição das plantas, as abelhas também "repartem" os recursos em relação a altura das fontes onde buscam esses recursos. Algumas espécies visitam plantas mais altas e é interessante (mas não inesperado) que em estudos sobre a comunicação das abelhas sem ferrão, espécies que preferem árvores mais altas conseguem comunicar a fontes dos recursos interessantes de forma bem eficiente; espécies que vão em árvores de tamanho intermediário não são tão boas e abelhas que vão em plantas baixas não conseguem comunicar a altura.
Aqui embaixo peguei um gráfico que mostra a dieta de duas espécies de abelhas sem ferrão asiáticas em diferentes tipos de vegetação. Vejam a grande diferença.

Aqui vocês vêem duas espécies (barras pretas e cinzas) e a proporção de pólen de plantas de diferentes vegetações. Canopy= copa de plantas altas. Understory= plantas que ficam embaixo dessas plantas altas e Gap= plantas que ficam fora da mara, em locais abertos e menos sombreados.

A preferência por determinadas plantas também ajuda a dividir os recursos e acho que está no mínimo indiretamente relacionado ao que falei acima. Enquanto essa espécie T. melanochepala, preferia pólen de plantas da família da fruta pão e araticum (Annonaceae), a outra, T. fuscobalteata tinha uma preferência enorme por pólen de plantas da família da mandioca e coroa de cristo (Euphorbiaceae).
Além disso e também não é muito fácil separar a causa do efeito, houve diferenças no arquitetura das flores preferidas pelas abelhas. Enquanto algumas iam em flores mais "fechadas", outras preferiam flores mais abertas.
Então, ao invés de se matar abelhas que julgamos ser agressivas, é melhor ter mais plantas. Plantar árvores, arbustos e ervas, de diferentes tamanhos, diferentes famílias, com flores de diferentes tamanhos, formatos e cores. Todo mundo sai ganhando, não só as abelhas sem ferrão, mas também outras abelhas, pássaros, morcegos e assim por diante. Tudo começa com plantas. Quanto mais planta e quanto mais tipos de plantas diferentes, melhor. Isso é um ciclo. "Plantamos plantas", que vão atrais polinizadores e gerar frutos. Os frutos vão atrais animais que comem esses frutos (como os morcegos), que vão dispersas as sementes e fazer com que mais mudas nasçam. Sem contar os bichos que vão chegar querendo comer os polinizadores e os dispersores e os bichos que vão querer comer os bichos que comem os polinizadores e dispersores. Mas faz parte, a natureza é assim. O problema é quando começamos a ter só uma espécie. Só uma espécie de planta, só uma de abelha (lembram da preocupação dos EUA com a morte das Apis?), só uma de dispersor... não é assim que funciona. Aí "dá merda".
Li esse post aqui. Por que as plantas tão dando certo? Aposto que mutias abelhas visitam essa casa, chamadas pelas plantas. Podem ou não ser as abelhas sem ferrão, as que criamos em caixas, mas não importa quais são, o que importa é que elas existem na região e devem estar aumentando bem a produção de sementes daquelas plantas e contribuindo muito pra essa "mata fora de controle" que tudo acabou virando.
Aqui em casa tenho um pé de pitanga. Deve ter uns 8 anos. Passou um tempão em um vaso, coitado, e há uns 5 ou 6 anos coloquei na terra. Ele dava poucas pitangas, mas há 1 ano e meio mais ou menos, estou criando abelhas sem ferrão e a quantidade de pitangas aumentou tremendamente. Não só frutos de pitanga, mas de muitas outras plantas, como funcho (ou erva doce).

 Bibliografia:

- Nagamitsu, T., Momose, K., Inoue, T. & Roubik, D.K. 1999. Preference in flower visits and partitioning in pollen diets of stingless bees in an Asian tropical rain forest. Researches on Population Ecology 41: 195- 202.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Competição e evolução

Existem muitas espécies de abelhas da tribo Meliponini, o que costumamos chamar de abelhas sem ferrão. São aproximadamente 300 espécies aqui na América do Sul e na Central. A grande maioria delas se alimenta de coisas semelhantes (pólen, néctar...) e são o que chamamos de generalistas, que visitam uma grande quantidade de espécies vegetais. Isso provavelmente vai gerar algum tipo de competição, não vai? E muitas vezes gera. Existem muitas evidências de que as abelhas sem ferrão podem competir ferozmente por alimento. A própria diferença nos tipos de comunicação e de exploração de recursos - recurso aqui é tudo que é importante pras abelhas sem ferrão... néctar, pólen, resina - que de que falei brevemente aqui, serve como um indício de que a vida das abelhas sem ferrão não é muito fácil. Por causa desse elevado nível de competição, elas adquiriram maneiras diferentes de explorar recursos, ao longo do tempo (pense em muito, muito tempo...). Não foi algo proposital; elas não decidiram que iam mudar isso ou aquilo, mas diferenças que existiam entre as espécies foram aos poucos sendo mantidas e potencializadas, é assim que a evolução funciona.
Evolução é uma coisa bem legal e o comportamento dos bichos também.
Acontecem trocas. Ninguém sai ganhando sempre. Então, existem basicamente três tipos de maneiras de se buscar e explorar recursos: 1) as abelhas podem forragear em grupo, ser agressivas e se especializar em recursos agrupados e muito "bons" e 2) abelhas forragearem sozinhas e evitarem esses recursos agrupados (por causa das agressivas), se especializando em recursos mais pobres e 3) as abelhas que ficam entre essas duas estratégias, podendo procurar alimento solitariamente e, após encontrar uma boa fonte, recrutar outras.
As abelhas que forrageiam em grupo e são agressivas precisam de muita comida, pra compensar o fato de muitas abelhas estarem juntas e as possíveis perdas em combate. Se os recursos fossem de baixa qualidade não ia compensar a energia gasta para defender esse recurso contra outras abelhas (se duas colônias de espécies agressivas se encontram, pode muito bem dar briga) e nem ia nutrir as abelhas que estivessem lá forrageando, no saldo total elas iam sair perdendo. Essas abelhas que forrageiam em "gangues" costumam demorar mais para encontrar alimentos, mas uma vez que encontram, costumam tomar posse dele e expulsar as abelhas não agressivas e as agressivas mas de colônias ou espécies mais fracas.
Já as abelhas não agressivas forrageiam solitariamente e "qualquer florzinha" é suficiente para elas: a planta não precisa ser capaz de alimentar 20 abelhas de uma vez. Além disso, encontram alimento muito rapidamente.
Em um estudo a respeito dessa competição, pesquisadores encontraram coisas interessantes. Eles analisaram cinco espécies de abelhas, de diferentes tamanhos e diferentes níveis de agressividade. Usaram para isso iscas artificiais, com glicose em concentrações decrescentes até chegar em água pura. Eles observaram que a maior abelha do estudo foi também a mais agressiva e que as iscas com maior concentração de glicose foram as iscas mais disputadas. Mas foi interessante que inicialmente até as iscas com água geraram briga e isso provavelmente é porque as abelhas que descobrem iscas novas associam todas elas com fontes de alimento, mesmo antes de provar o que tem dentro, já que com o tempo essas iscas deixaram de ser disputadas. Vale ressaltar aqui que "briga" pras abelhas muitas vezes são apenas comportamentos agressivos como trombadas ou mesmo ações como abrir as asas, que não causa dano nenhum. De vez em quando as coisas ficam piores como cortar partes do corpo de outras abelhas ou matar, mas isso só acontece quando nenhuma das outras formas mais brandas funciona, o que parece ser raro.
Outra coisa interessante foi que só a presença de espécies agressivas foi suficiente para que algumas abelhas mudassem o comportamento normal, por exemplo, demorando mais para pousar na isca quando uma abelha grande estava a vista.
Essas diferenças nas estratégias de alimentação, gera uma divisão ou "partição" ao longo do tempo.
Um grupo de abelhas se especializa em um tipo de recurso e um segundo grupo se especializa em outro. Estudando duas espécies de abelhas, uma que forrageia em grupo e outra que tem forrageamento solitário, em uma mesma espécies de árvore (da famílias do flamboyant... as abelhas gostam muito dessas plantas), foi visto que as abelhas que buscam alimento em grupo claramente preferem as árvores que ocorrem agrupadas (próximas umas às outras) e que tem uma maior quantidade de flores. Elas nunca iam em plantas solitárias. Por outro lado, as abelhas que buscavam alimento sozinho ocorriam mais frequentemente em plantas solitárias e até tentavam a sorte em plantas agrupadas e defendidas pela espécie agressiva. Se alimentavam por um tempo, mas acabavam sendo expulsas das plantas agrupadas. Então, elas usaram 4 vezes mais as plantas isoladas, que não são interessantes para as espécies que forrageiam em grupo.
Pra quem cria abelhas: não, não precisam e não devem sair matando tudo quanto é abelha grande, com medo de elas serem agressivas e atrapalharem "as suas". Mandaçaia é grande e não é agressiva, não forrageia em grupo, por exemplo. Ser grande é apenas um indício. Outra coisa, as abelhas se viram muito bem competindo há muuuuito tempo, você não precisa tentar dar uma mão a elas (às suas), se não, a atividade vai deixar de ser algo benéfico ao meio ambiente e vai virar algo ruim, porque algumas espécies vão começar a ter problemas. E apesar de as abelhas sem ferrão serem generalistas, algum tipo de diferença na dieta existe, como acabei de falar com essa questão de abelhas com um tipo de forrageio visitarem planas com uma determinada distribuição e as não agressivas visitarem outro grupo. Existem diferenças também em relação à altura das plantas que as abelhas usam... enfim, sumir espécie não é bom! Pode gerar um efeito cascata.
O ser humano tem que parar de ficar olhando só pro umbigo. Não tentem fazer da criação de abelhas sem ferrão o que fizeram com as Apis. Olha o problema que tem acontecido por lá... falei um pouco do problema aqui. Fiquei com medo de postar isso e começarem a matar abelhas por, querendo proteger as "meninas dos olhos", só que alguns amigos falaram que era legal, então resolvi fazer. Mas coloquem a mão na consciência e não façam da meliponicultura mais uma máquina de ganhar dinheiro e de sacanear as espécies inviáveis para criar ou as que não são economicamente importantes...

Senna pallida, a espécie com distribuição solitária ou agrupada, que falei acima. (fonte da foto)


Bibliografia:

- Hubbel, S.P. & Johnson, L.K. 1978. Comparative foraging behavior of six stingless bees exploiting a standardized resource. Ecology 59(6): 1123- 1136.
- Johnson, L.K. & Hubbell, S.P. 1975. Contrasting foraging strategies and coexistence of two bee species on a single resource. Ecology 56(6): 1398- 1406.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Curso de Meliponicultura

Para quem ficou com vontade de conhecer mais sobre nossas abelhas, segue abaixo informações sobre um curso de meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão). Será realizado em Brasília, DF. Curso recomendado, ministrado por pessoas capacitadas. 

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Boa tarde! Saudações Apícolas


-- A Associação Apícola do Distrito Federal (API-DF) e o Sindicato dos Apicultores do Distrito Federal (SINDIAPIS) tem o prazer de convidá-lo para fazer o curso de iniciação a Meliponicultura, (Criação racional de abelhas nativas sem ferrão) que será realizado, nas seguintes condições:


DATA: 23/11/2013 e 30/11/2013 ( Sábado)


HORÁRIO: De 08:00 ás 17:00 horas.


LOCAL: Federação da Agricultura e Pecuária do Distrito Federal, (FAPE-DF) no SIA TRECHO 2 LOTE 1.630 (final do trecho das concessionárias, 4 lotes após a Peugeot)


VALOR: R$ 150,00 (cento e cinqüenta reais)


As vagas são limitadas, o aluno interessado, por gentileza confirme sua inscrição pessoalmente, por telefone ou por e-mail até o dia 20/11/2013.

Aproveitamos a oportunidade para convidá-lo para participar de nossas tradicionais reuniões, onde toda quarta-feira a partir das 20:00 horas na FAPE-DF associados da API-DF e sindicalizados do SINDIAPIS, se reiunem com o intuito de aprimorar seus conhecimentos no setor.


Agradecemos a atenção e nos colocamos a disposição para qualquer esclarecimento.

Mais informações, entrar em contato com: SINDIAPIS (61) 3443-1038

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nem tudo são flores

Li na edição número 137 (outubro de 2013) da revista Scientific American Brasil, uma reportagem muito legal, sobre abelhas. Procurei até não poder mais, pra ver se achava essa reportagem online, para indicar aqui (e no facebook) mas não encontrei. Procurei em inglês e nada também. Resolvi escrever pra SciAm Brasil e não achei onde mandar sugestões. Bom, vou tentar resumir aqui. O título da reportagem é (em português): "O Retorno das Abelhas Nativas".

"Mason bee" (Osmia lignaria) espécie já comercializada para polinização. (foto:http://www.agf.gov.bc.ca/apiculture/factsheets/506_osmia.htm)

Quem de alguma forma se interessa por abelhas, polinização e essas coisas, já deve deve ter ouvido falar da mortandade absurda de abelhas que tem ocorrido lá fora. Chama CCD (Colony Collapse Disorder - ou algo como desordem do colapso de colônia). Ela está preocupando bastante os agricultores e cientistas. Ela não é nova, mas em 2006, um apicultor perdeu 360 das 400 colmeias que tinha... as caixas tinham pólen, mel, crias... mas nada de abelhas. Elas saíram das caixas e não voltaram mais. Depois disso (que foi no outono), até o inverno seguinte alguns apicultores chegaram a perder 90% das colmeias.
Até hoje, não se sabe ao certo o que causa esse problema, mas algumas coisas parecem contribuir, como fungicidas, neonicotinioides (pesticidas), mas o que parece ser o principal culpado, são carrapatos do gênero Varroa, na reportagem eles dizem que na Austrália, onde os neonicotinioides são amplamente usados, mas onde não existe esse carrapato, as colônias não estão tendo esse problema da CCD. Esses carrapatos, além de sugarem o "sangue" das abelhas, ainda são vetores de doenças, disseminando vírus para as abelhas.
Um outro problema, é a questão das monoculturas. Por quê? Basicamente, superpopulação e mistura de causadores de doença de diferentes locais. Eles dão um exemplo bom: imagine um monte de criança num jardim de infância juntas, cada uma misturando seus agentes patogênicos. Isso acontece porque quando as grandes culturas dos EUA estão em floração, como as amendoeiras, as abelhas são "contratadas" para polinizar. Como as monoculturas são enormes (quem puder, veja o documentário "mais que mel", ou "more than honey", vale muito a pena), muitas abelhas, de diferentes regiões do país (e portanto com diferentes "cepas", ou "tipos" de doenças, se juntam). Mas o ser humano nunca causa um tipo só de problema. Com a sua tara por dinheiro, quer transformar tudo, inclusive seres vivos, em máquinas de fazer dinheiro. Quando não é época dessas grandes floradas, as abelhas não tem tanto alimento, então os apicultores alimentas as abelhas com água açucarada, xarope, milho... o que com certeza é muito menos adequado que pólen e não só pólen, como pólen de variadas espécies vegetais. As abelhas basicamente ficam a base de fast-foods quando não estão em uma monocultura (de qualquer forma, em uma monocultura a dieta delas, apesar de natural, estará longe de ser variada...). Sem contar o estresse pras abelhas de estar cada hora em uma região.
As abelhas nativas (sim, os EUA também tem abelhas nativas; as Apis não existiam lá) foram esquecidas. Na Califórnia existiam 1.600 espécies. Mas como era de se esperar, suas populações diminuíram e algumas espécies até sumiram de alguns estados americanos. Os pesquisadores estão tentando bolar maneiras de "chamar" e manter as espécies nativas de lá perto das plantações o ano todo. Estão começando a fazer testes, por exemplo, com diferentes espécies nativas dos EUA, que floram em diferentes épocas do ano, em "manchas" no meio das plantações, para que as abelhas nativas tenham lugar para ficar e alimento durante todo o ano.
Isso está sendo feito porque a ficha caiu (para muitos, pelo menos) que depender de só um tipo de polinizador (as Apis, que estão com problemas sérios, como sempre, com nossa contribuição) não é bom, porque se ele some, as lavouras vão diminuir muito sua produção ou até mesmo parar. Na China, onde alguns lugares não tem mais polinizadores por causa de perda de habitat e aplicação indiscriminada de pesticidas, fazendeiros contratam pessoas para ficarem com (pasmem) pinceizinhos, polinizando flor por flor (isso é mostrado no documentário que falei).
Algumas dessas abelhas alternativas já são até comercializadas!
Alguns agricultores lá fora já estão investindo em ter culturas de plantas nativas para os polinizadores nativos em suas plantações e o Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos subsidia de 50 a 90% dos custos para isso.
E nós, brasileiros, o que podemos fazer? Nós temos muitas abelhas por aqui. Podíamos "acordar"... aprender com o trágico exemplo dos Estados Unidos. Temos as Meliponini, que são sociais, podem ser criadas em caixinhas (em sua maioria) e produzem mel... mas também temos abelhas solitárias (que não vivem em colônias com divisão de tarefa entre abelhas e com muitas gerações juntas), mamangavas de diferentes tipos (essenciais em cultivos de maracujá), abelhas de suor, abelhas de orquídea... temos abelha de todo tipo.
Ao mesmo tempo, ia ser bom tomar cuidado e não transformar essas outras abelhas em novas "máquinas". Podíamos aprender a lição...

Bibliografia:

- Rosner, H. 2013. O retorno das abelhas nativas. Scientific American Brasil 137: 64-69.
Procurem e assistam o documentário More than Honey.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um pouco sobre polinização e abelhas sem ferrão

As abelhas sem ferrão são excelentes polinizadoras. Na postagem anterior falei sobre polinização como um serviço ambiental. Não tem como falar extensivamente de tudo aqui. Até porque não sou nenhum especialista no assunto e os próprios especialistas ainda debatem algumas coisas, mas faço o que posso.
Agora quero falar um pouco das nossas abelhas sem ferrão.
Tem uns artigos legais que tratam do assunto. Porém, a maioria é focada em plantas cultivadas. Afinal, infelizmente o ser humano só age quando mexe no bolso... se queremos preservar algo, dificilmente vamos conseguir apelando pro bicho em si; o jeito mais garantido é usar coisas que podem gerar lucro (ou impedir que prejuízos aconteçam).
As abelhas sem ferrão tem algumas características interessantes para serem usadas como polinizadoras em colheitas. Por exemplo, 1) elas são muito abundantes na América do Sul, 2) formam colônias "perenes", ou seja, colônias que duram por muito tempo e geralmente não hibernam, ficando ativas o ano todo e consequentemente "funcionando" (como polinizadoras) também o ano todo, 3) um negócio chamado "polilectilia", que significa que as abelhas usam pólen de muitas espécies diferentes, 4) o fato de elas terem a chamada "constância floral", que é a tendência que as abelhas apresentam de em cada viagem recolherem pólen de apenas uma espécie vegetal. Isto é, ela sai uma vez e colhe só pólen em pitangueiras até encher a corbícula e volta pro ninho, descarrega a carga e sai outra vez. Nessa segunda viagem, se ela resolve visitar um assa peixe, ela vai colher preferencialmente pólen de outros assa-peixes nessa viagem. 5) A comunicação delas também ajuda.... e assim por diante. Essas são características compartilhadas com as abelhas com ferrão, mas elas ainda possuem outras, que as abelhas com ferrão não tem: 1) Não ferroam! 2) Se você multiplica abelhas sem ferrão por causa das plantações , está contribuindo com a fauna (e flora) brasileira, 3) abelhas sem ferrão não conseguem "fugir", como as Apis, já que as rainhas perdem a capacidade de voar.
Além de tudo o que foi falado, vale dizer que cerca de metade das plantas tropicais economicamente importantes, são de áreas em que as abelhas de ferrão não ocorrem naturalmente. Por exemplo, Austrália e os "neotrópicos" (basicamente, as Américas do Sul e Central). Metade dessas, por sua vez, provavelmente é polinizada por abelhas. Mas isso não é uma limitação para culturas exóticas. Essas abelhas conseguem "aprender" quais outras plantas são boas fornecedoras de alimento, como aconteceu com o eucalipto, que não é natural do Brasil, mas é extensamente visitado pelas abelhas sem ferrão.
Finalmente achei figuras legais pra colocar... então aí vai:

Culturas polinizadas por abelhas sem ferrão:

Bibliografia:

- Heard, T.A. 1999. The role of stingless bees in crop pollination. Annual Review of Entomology 44: 183- 206.
- Slaa, E.J., Sánchez-Chavez, L.A., Malagodi-Braga, K.S & Hofstede, F.E. 2006. Stingless bees in crop pollination: practice and perspectives. Apidologie 37: 293- 315.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Busca de alimento

A comunicação das abelhas sem ferrão tem também muito a ver com o tipo de estratégia que elas usam para buscar recursos como pólen e resina. O nome disso é “forrageio”. Então, o tipo de comunicação das abelhas sem ferrão tem a ver com as estratégias usadas para forragear.
Algumas abelhas, como a iraí (Nannotrigona testaceicornis), não “marcam” o caminho até o alimento, como outras espécies e faz parte do grupo chamado de abelhas com “forrageamento solitário”. O que acontece nessa abelha é que cada uma busca alimento por si só; como já falei, quando uma abelha que encontrou uma fonte de alimento adequada volta ao ninho, ela avisa através de som para as outras, mas ela não marca essa fonte. As companheiras saem do ninhos sabendo que tem alguma coisa interessante pra pegar. Por conta dessa estratégia, elas são muito eficientes para encontrar comida. Em um experimento em que pesquisadores procuraram descobrir quais as estratégias de forrageamento das abelhas sem ferrão (para isso eles usaram “iscas” contendo água com açúcar, simulando flores e não flores propriamente ditas, para ter um maior controle), essa espécie esteve entre as primeiras a encontrar a comida e entre as que descobriu um maior número de “iscas” de alimento. Ao fim experimento, aproximadamente um dia e meio, de 114 “iscas”, elas tinham encontrado 109.
Já outra, que está entre as “forrageadoras de grupo”, faz as trilhas de que falei na postagem sobre comunicação. No mesmo estudo do parágrafo anterior, havia uma espécie com essa estratégia (Trigona fuscipennis; não achei o nome popular dela, mas basta saber que é do gênero das arapuás, guaxupés e da abelha que não come pólen; esse é um dos maiores gêneros de abelhas sem ferrão). Ela demora mais pra encontrar o alimento, só que quando o encontra, marca a localização e outras abelhas da mesma colônia vão atrás. O que acontece é que muitas abelhas chegam no lugar marcado, por várias vezes chegando a “monopolizar” o alimento (falo mais disso em outra postagem). No estudo, essa abelha demorou mais para encontrar as “iscas”, por volta de 3 horas. Durante um dia inteiro só encontrou uma das 114 iscas disponíveis, mas exploraram intensamente essa “iscas”. Chegou-se a contar 325 abelhas ao mesmo tempo nela. De um dia pro outro, os pesquisadores fecharam a isca para que bichos não mexessem e no dia seguinte, as abelhas descobriram mais iscas. Os autores especulam que isso aconteceu porque as abelhas foram em busca da “isca” logo cedo, mas a encontraram fechada (eles abriram as “iscas” só as 9 da manhã) e entenderam como se tivesse acabado, então foram buscar em outros locais, encontrando outras iscas. Quando a isca inicialmente utilizada foi aberta, elas voltaram para ela e também para outras “iscas” que haviam encontrado. Ao fim do estudo, apenas 15 das 114 iscas haviam sido encontradas por essa espécie.
Já outra estratégia, é a chama “forrageadoras de grupo facultativas”. Essas espécies conseguem comunicar onde está o alimento de forma bem eficiente, porém o forrageio das abelhas costuma ser solitário. Um exemplo nesse estudo é a Trigona silvestriana (não sei o nome popular de novo). Os autores falam que ela tem um comportamento que chamaram de “saqueador”. As abelhas ficam rondando as iscas e expulsavam abelhas que já estavam recolhendo alimento. Foi visto com certa frequência que apenas um indivíduo dessa espécie consegui expulsar grupos de até 10 abelhas de uma outra espécie do estudo. Além disso, em um outro estudo, os pesquisadores perceberam que o feromônio depositado pela Trigona silvestriana era detectado e evitado por essa outra espécie.
Esse comportamente de saque é especialmente evidente logo de manhã. Conforme o dia passa, as T. silvestriana passam a dar preferência a “iscas” já dominadas pela colônia. Os autores pensam que isso seja um indicativo de que essa estratégia é especialmente adequada para encontrar recursos com alta qualidade, localizados e “efêmeros” (ou seja, que acabam rápido) e exauri-los antes que outras espécies ou colônias da mesma espécie o encontrem. Ao contrário dessas “saqueadoras”, a espécie T. fuscipennis, aquela que forrageia em grupos e chegou a ter mais de 300 indivíduos em uma mesma “isca”, tem uma “fidelidade”, ou constância extremamente alta. Como já foi dito, elas passaram um dia inteiro em uma mesma “isca” e provavelmente só encontraram outras porque pensaram que a que estavam usando havia acabado (quando foi fechada a noite). Os autores sugerem que esse comportamento seja adequado pra explorar recursos concentrados e que duram por mais tempo, pois conseguem “monopolizar” o alimento.


Bom, não encontrei fotos de novo... então coloquei um gráfico do artigo que cito aqui embaixo. Nesse gráfico está a quantidade de "iscas" encontradas pelas diferentes espécies de abelha sem ferrão ao longo do tempo durante o estudo. As iscas foram fechadas às 17 horas do dia 13 de agosto e reabertas as 9 do dia 14, por isso o eixo X não é contínuo.
T. testaceicornis é a IRAÍ (mas o nome científico atual é Nannotrigona testaceicornis). Sim, os bichos podem mudar de nome científico. Lembrando, a Iraí é aquela que forrageia de forma solitária. Vejam a quantidade de iscas que encontrou. A T. silvestriana é a "saqueadora", que consegue recrutar abelhas de forma eficiente, mas busca alimento de forma solitária. Por fim, a T. fuscipennis é aquela que forrageia em grupo. Bait= "isca".


Bibliografia:

- Hubbell, S.P. & Johnson, L.K. 1978. Comparative foraging behavior of six stingless bee species exploiting a standardized resource. Ecology 59(6): 1123- 1136.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Abelhas que não comem pólen

A diversidade que existe entre as abelhas sem ferrão é impressionante.
A maioria das abelhas usa pólen como fonte de proteína. As Apis, a maioria das abelhas sem ferrão, as mamangavas...
Mas existe um grupo de abelhas sem ferrão que parou de usar pólen como fonte de proteína. São espécies que estão dentro do gênero Trigona (o mesmo das arapuás, guaxupés, abelha cachorro, mombucão e etc.). Vou falar de uma espécie especificamente, a mombuca carniceira (Trigona hypogea). Ao contrário do que o nome sugere (hypo vem do grego, significa embaixo/sob e geo, também no grego, significando terra, no sentido de "chão"), nas fontes que encontrei é mencionado que a espécie faz ninhos em cavidades ("ocos") de árvores, vivas (um pesquisador achou um ninho num tronco de pequi, inclusive!) ou mortas, com a entrada feita de resina e barro. São mansas, ao contrário de outras Trigona, como arapuá (T. spinipes) e guaxupé (T. hyalinata).
Em um levantamento da dieta de espécies de abelhas sem ferrão em um local onde havia sido encontrado um ninho de T. hypogea, a espécie nunca foi vista visitando flores. Essa espécie chegou a perder as "cestas" onde outras abelhas carregam pólen (corbículas), de tão especializadas que se tornaram em usar proteína animal. Mas não precisam ficar com nojo, essa proteína é modificada. Uma vez que uma abelha encontra um carcaça, ela "raspa" a carne e a leva até a colônia (na volta ela marca uma trilha de feromônios, e outras abelhas são rapidamente atraídas até a carcaça) e lá ela a deposita em potes especiais. Após isso, abelhas adicionam mel a esse pote. Esses potes ficam abertos por quase 1 dia e então são fechados e ficam por aproximadamente 14 dias, "maturando". Os pesquisadores acreditam que microorganismos presentes no mel (mel de abelhas caracteristicamente contém microorganismos) "processam" essa proteína animal, degradando-a. Eles abriram potes em diferentes estágios de "maturação" e foram vendo a transformação que a carne sofre ao longo do tempo. Logo que é adicionada ao pote, ela é uma massa mastigada, com a mesma cor que tinha no local onde as abelhas a coletaram; após isso, vai se tornando um fluido viscoso e no fim está clara, com aparência de mel, amarelada e homogênea. Elas não usam carniça, mas sim carne, que ainda não está se decompondo. Nenhum traço de carne podre foi encontrado nem nos potes e nem em nenhum outro local no ninho da T. hypogea.
Outra coisa interessante nessa espécie de abelha sem ferrão, é que elas foram observadas atacando as larvas de um ninho de vespas que havia sido abandonado. Lembram do que falei, sobre os sistemas de comunicação das abelhas sem ferrão? Pois é, essa espécie tem um sistema de comunicação tão eficiente, que foram capazes de encontrar essas fontes de proteína mais rápido que formigas (!). Larvas de insetos são uma fonte limpa e indefesa de alimento. Portanto, bem interessante para as abelhas. E os pesquisadores ainda especulam, baseado no modo "sofisticado" com que as abelhas tiraram proveito dos ninhos de vespa, que esse comportamento deve ser comum nessa espécie de abelha sem ferrão e que talvez as larvas sejam um complemento importante na dieta delas.
Uma abelha fantástica essa! Infelizmente nunca a vi. Não tenho fotos de ninhos pra colocar...

Bibliografia:

- Camargo, J.M.F. & Roubik, D.W. 1991. Systematics and bionomics of the apoid obligate necrophages: the Trigona hypogea group (Hymenoptera; Apidae: Meliponini). Biological Journal of the Linnean Society 44: 13-39.
- Mateus, S. & Noll, F.B. 2004. Predatory behavior in a necrophagous bee Trigona hypogea (Hymenoptera; Apidae: Meliponini). Naturwissenschaften 91:94–96.
- Noll, F.B., Zucchi, R., Jorge, J.A. & Mateus, S. 1996. Food collection and maturation in the necrophagous stingless bee Trigona hypogea (Hymenoptera: Meliponinae). Journal of the Kansas Entomological Society 69(4): 287-293.