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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Busca de alimento

A comunicação das abelhas sem ferrão tem também muito a ver com o tipo de estratégia que elas usam para buscar recursos como pólen e resina. O nome disso é “forrageio”. Então, o tipo de comunicação das abelhas sem ferrão tem a ver com as estratégias usadas para forragear.
Algumas abelhas, como a iraí (Nannotrigona testaceicornis), não “marcam” o caminho até o alimento, como outras espécies e faz parte do grupo chamado de abelhas com “forrageamento solitário”. O que acontece nessa abelha é que cada uma busca alimento por si só; como já falei, quando uma abelha que encontrou uma fonte de alimento adequada volta ao ninho, ela avisa através de som para as outras, mas ela não marca essa fonte. As companheiras saem do ninhos sabendo que tem alguma coisa interessante pra pegar. Por conta dessa estratégia, elas são muito eficientes para encontrar comida. Em um experimento em que pesquisadores procuraram descobrir quais as estratégias de forrageamento das abelhas sem ferrão (para isso eles usaram “iscas” contendo água com açúcar, simulando flores e não flores propriamente ditas, para ter um maior controle), essa espécie esteve entre as primeiras a encontrar a comida e entre as que descobriu um maior número de “iscas” de alimento. Ao fim experimento, aproximadamente um dia e meio, de 114 “iscas”, elas tinham encontrado 109.
Já outra, que está entre as “forrageadoras de grupo”, faz as trilhas de que falei na postagem sobre comunicação. No mesmo estudo do parágrafo anterior, havia uma espécie com essa estratégia (Trigona fuscipennis; não achei o nome popular dela, mas basta saber que é do gênero das arapuás, guaxupés e da abelha que não come pólen; esse é um dos maiores gêneros de abelhas sem ferrão). Ela demora mais pra encontrar o alimento, só que quando o encontra, marca a localização e outras abelhas da mesma colônia vão atrás. O que acontece é que muitas abelhas chegam no lugar marcado, por várias vezes chegando a “monopolizar” o alimento (falo mais disso em outra postagem). No estudo, essa abelha demorou mais para encontrar as “iscas”, por volta de 3 horas. Durante um dia inteiro só encontrou uma das 114 iscas disponíveis, mas exploraram intensamente essa “iscas”. Chegou-se a contar 325 abelhas ao mesmo tempo nela. De um dia pro outro, os pesquisadores fecharam a isca para que bichos não mexessem e no dia seguinte, as abelhas descobriram mais iscas. Os autores especulam que isso aconteceu porque as abelhas foram em busca da “isca” logo cedo, mas a encontraram fechada (eles abriram as “iscas” só as 9 da manhã) e entenderam como se tivesse acabado, então foram buscar em outros locais, encontrando outras iscas. Quando a isca inicialmente utilizada foi aberta, elas voltaram para ela e também para outras “iscas” que haviam encontrado. Ao fim do estudo, apenas 15 das 114 iscas haviam sido encontradas por essa espécie.
Já outra estratégia, é a chama “forrageadoras de grupo facultativas”. Essas espécies conseguem comunicar onde está o alimento de forma bem eficiente, porém o forrageio das abelhas costuma ser solitário. Um exemplo nesse estudo é a Trigona silvestriana (não sei o nome popular de novo). Os autores falam que ela tem um comportamento que chamaram de “saqueador”. As abelhas ficam rondando as iscas e expulsavam abelhas que já estavam recolhendo alimento. Foi visto com certa frequência que apenas um indivíduo dessa espécie consegui expulsar grupos de até 10 abelhas de uma outra espécie do estudo. Além disso, em um outro estudo, os pesquisadores perceberam que o feromônio depositado pela Trigona silvestriana era detectado e evitado por essa outra espécie.
Esse comportamente de saque é especialmente evidente logo de manhã. Conforme o dia passa, as T. silvestriana passam a dar preferência a “iscas” já dominadas pela colônia. Os autores pensam que isso seja um indicativo de que essa estratégia é especialmente adequada para encontrar recursos com alta qualidade, localizados e “efêmeros” (ou seja, que acabam rápido) e exauri-los antes que outras espécies ou colônias da mesma espécie o encontrem. Ao contrário dessas “saqueadoras”, a espécie T. fuscipennis, aquela que forrageia em grupos e chegou a ter mais de 300 indivíduos em uma mesma “isca”, tem uma “fidelidade”, ou constância extremamente alta. Como já foi dito, elas passaram um dia inteiro em uma mesma “isca” e provavelmente só encontraram outras porque pensaram que a que estavam usando havia acabado (quando foi fechada a noite). Os autores sugerem que esse comportamento seja adequado pra explorar recursos concentrados e que duram por mais tempo, pois conseguem “monopolizar” o alimento.


Bom, não encontrei fotos de novo... então coloquei um gráfico do artigo que cito aqui embaixo. Nesse gráfico está a quantidade de "iscas" encontradas pelas diferentes espécies de abelha sem ferrão ao longo do tempo durante o estudo. As iscas foram fechadas às 17 horas do dia 13 de agosto e reabertas as 9 do dia 14, por isso o eixo X não é contínuo.
T. testaceicornis é a IRAÍ (mas o nome científico atual é Nannotrigona testaceicornis). Sim, os bichos podem mudar de nome científico. Lembrando, a Iraí é aquela que forrageia de forma solitária. Vejam a quantidade de iscas que encontrou. A T. silvestriana é a "saqueadora", que consegue recrutar abelhas de forma eficiente, mas busca alimento de forma solitária. Por fim, a T. fuscipennis é aquela que forrageia em grupo. Bait= "isca".


Bibliografia:

- Hubbell, S.P. & Johnson, L.K. 1978. Comparative foraging behavior of six stingless bee species exploiting a standardized resource. Ecology 59(6): 1123- 1136.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Abelhas que não comem pólen

A diversidade que existe entre as abelhas sem ferrão é impressionante.
A maioria das abelhas usa pólen como fonte de proteína. As Apis, a maioria das abelhas sem ferrão, as mamangavas...
Mas existe um grupo de abelhas sem ferrão que parou de usar pólen como fonte de proteína. São espécies que estão dentro do gênero Trigona (o mesmo das arapuás, guaxupés, abelha cachorro, mombucão e etc.). Vou falar de uma espécie especificamente, a mombuca carniceira (Trigona hypogea). Ao contrário do que o nome sugere (hypo vem do grego, significa embaixo/sob e geo, também no grego, significando terra, no sentido de "chão"), nas fontes que encontrei é mencionado que a espécie faz ninhos em cavidades ("ocos") de árvores, vivas (um pesquisador achou um ninho num tronco de pequi, inclusive!) ou mortas, com a entrada feita de resina e barro. São mansas, ao contrário de outras Trigona, como arapuá (T. spinipes) e guaxupé (T. hyalinata).
Em um levantamento da dieta de espécies de abelhas sem ferrão em um local onde havia sido encontrado um ninho de T. hypogea, a espécie nunca foi vista visitando flores. Essa espécie chegou a perder as "cestas" onde outras abelhas carregam pólen (corbículas), de tão especializadas que se tornaram em usar proteína animal. Mas não precisam ficar com nojo, essa proteína é modificada. Uma vez que uma abelha encontra um carcaça, ela "raspa" a carne e a leva até a colônia (na volta ela marca uma trilha de feromônios, e outras abelhas são rapidamente atraídas até a carcaça) e lá ela a deposita em potes especiais. Após isso, abelhas adicionam mel a esse pote. Esses potes ficam abertos por quase 1 dia e então são fechados e ficam por aproximadamente 14 dias, "maturando". Os pesquisadores acreditam que microorganismos presentes no mel (mel de abelhas caracteristicamente contém microorganismos) "processam" essa proteína animal, degradando-a. Eles abriram potes em diferentes estágios de "maturação" e foram vendo a transformação que a carne sofre ao longo do tempo. Logo que é adicionada ao pote, ela é uma massa mastigada, com a mesma cor que tinha no local onde as abelhas a coletaram; após isso, vai se tornando um fluido viscoso e no fim está clara, com aparência de mel, amarelada e homogênea. Elas não usam carniça, mas sim carne, que ainda não está se decompondo. Nenhum traço de carne podre foi encontrado nem nos potes e nem em nenhum outro local no ninho da T. hypogea.
Outra coisa interessante nessa espécie de abelha sem ferrão, é que elas foram observadas atacando as larvas de um ninho de vespas que havia sido abandonado. Lembram do que falei, sobre os sistemas de comunicação das abelhas sem ferrão? Pois é, essa espécie tem um sistema de comunicação tão eficiente, que foram capazes de encontrar essas fontes de proteína mais rápido que formigas (!). Larvas de insetos são uma fonte limpa e indefesa de alimento. Portanto, bem interessante para as abelhas. E os pesquisadores ainda especulam, baseado no modo "sofisticado" com que as abelhas tiraram proveito dos ninhos de vespa, que esse comportamento deve ser comum nessa espécie de abelha sem ferrão e que talvez as larvas sejam um complemento importante na dieta delas.
Uma abelha fantástica essa! Infelizmente nunca a vi. Não tenho fotos de ninhos pra colocar...

Bibliografia:

- Camargo, J.M.F. & Roubik, D.W. 1991. Systematics and bionomics of the apoid obligate necrophages: the Trigona hypogea group (Hymenoptera; Apidae: Meliponini). Biological Journal of the Linnean Society 44: 13-39.
- Mateus, S. & Noll, F.B. 2004. Predatory behavior in a necrophagous bee Trigona hypogea (Hymenoptera; Apidae: Meliponini). Naturwissenschaften 91:94–96.
- Noll, F.B., Zucchi, R., Jorge, J.A. & Mateus, S. 1996. Food collection and maturation in the necrophagous stingless bee Trigona hypogea (Hymenoptera: Meliponinae). Journal of the Kansas Entomological Society 69(4): 287-293.