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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

As diferenças ajudam a manter a diversidade

Outro dia falei da agressividade entre as abelhas sem ferrão, o que acaba fazendo com que espécies com estratégias diferentes visitem mais um tipo de planta, de acordo com quantidade de flor e distribuição dos indivíduos dessas plantas. Fiquei com medo de isso virar uma justificativa pra saírem por aí matando abelhas, então resolvi falar um pouco mais sobre fatores que ajudam a manter todas as abelhas coexistindo e sobrevivendo, mesmo que haja conflitos.
Além do tipo de distribuição das plantas, as abelhas também "repartem" os recursos em relação a altura das fontes onde buscam esses recursos. Algumas espécies visitam plantas mais altas e é interessante (mas não inesperado) que em estudos sobre a comunicação das abelhas sem ferrão, espécies que preferem árvores mais altas conseguem comunicar a fontes dos recursos interessantes de forma bem eficiente; espécies que vão em árvores de tamanho intermediário não são tão boas e abelhas que vão em plantas baixas não conseguem comunicar a altura.
Aqui embaixo peguei um gráfico que mostra a dieta de duas espécies de abelhas sem ferrão asiáticas em diferentes tipos de vegetação. Vejam a grande diferença.

Aqui vocês vêem duas espécies (barras pretas e cinzas) e a proporção de pólen de plantas de diferentes vegetações. Canopy= copa de plantas altas. Understory= plantas que ficam embaixo dessas plantas altas e Gap= plantas que ficam fora da mara, em locais abertos e menos sombreados.

A preferência por determinadas plantas também ajuda a dividir os recursos e acho que está no mínimo indiretamente relacionado ao que falei acima. Enquanto essa espécie T. melanochepala, preferia pólen de plantas da família da fruta pão e araticum (Annonaceae), a outra, T. fuscobalteata tinha uma preferência enorme por pólen de plantas da família da mandioca e coroa de cristo (Euphorbiaceae).
Além disso e também não é muito fácil separar a causa do efeito, houve diferenças no arquitetura das flores preferidas pelas abelhas. Enquanto algumas iam em flores mais "fechadas", outras preferiam flores mais abertas.
Então, ao invés de se matar abelhas que julgamos ser agressivas, é melhor ter mais plantas. Plantar árvores, arbustos e ervas, de diferentes tamanhos, diferentes famílias, com flores de diferentes tamanhos, formatos e cores. Todo mundo sai ganhando, não só as abelhas sem ferrão, mas também outras abelhas, pássaros, morcegos e assim por diante. Tudo começa com plantas. Quanto mais planta e quanto mais tipos de plantas diferentes, melhor. Isso é um ciclo. "Plantamos plantas", que vão atrais polinizadores e gerar frutos. Os frutos vão atrais animais que comem esses frutos (como os morcegos), que vão dispersas as sementes e fazer com que mais mudas nasçam. Sem contar os bichos que vão chegar querendo comer os polinizadores e os dispersores e os bichos que vão querer comer os bichos que comem os polinizadores e dispersores. Mas faz parte, a natureza é assim. O problema é quando começamos a ter só uma espécie. Só uma espécie de planta, só uma de abelha (lembram da preocupação dos EUA com a morte das Apis?), só uma de dispersor... não é assim que funciona. Aí "dá merda".
Li esse post aqui. Por que as plantas tão dando certo? Aposto que mutias abelhas visitam essa casa, chamadas pelas plantas. Podem ou não ser as abelhas sem ferrão, as que criamos em caixas, mas não importa quais são, o que importa é que elas existem na região e devem estar aumentando bem a produção de sementes daquelas plantas e contribuindo muito pra essa "mata fora de controle" que tudo acabou virando.
Aqui em casa tenho um pé de pitanga. Deve ter uns 8 anos. Passou um tempão em um vaso, coitado, e há uns 5 ou 6 anos coloquei na terra. Ele dava poucas pitangas, mas há 1 ano e meio mais ou menos, estou criando abelhas sem ferrão e a quantidade de pitangas aumentou tremendamente. Não só frutos de pitanga, mas de muitas outras plantas, como funcho (ou erva doce).

 Bibliografia:

- Nagamitsu, T., Momose, K., Inoue, T. & Roubik, D.K. 1999. Preference in flower visits and partitioning in pollen diets of stingless bees in an Asian tropical rain forest. Researches on Population Ecology 41: 195- 202.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Mais um sentido diferente

Outro dia falei das mamangavas, que conseguem perceber campos elétricos em flores.
Os morcegos também tem um. Chamam de ecolocalização. Durante muito tempo ninguém entendia como os morcegos conseguiam voar tão bem a noite e isso ajudou a reputação nada boa deles, de serem seres "das trevas". Como sempre, a tendência do ser humano de jogar o que não entendem pra cesta do "é do diabo"...
Até que na década de 40, um pesquisador descobriu que morcegos emitiam sons de alta frequência, que serviam para mapear o terreno por onde voavam e até para detectar e perseguir presas, como mariposas, em pleno voo. Esse "sonar" era tão sensível, que podia detectar fios de até 1/4 de milímetro. Eles emitem sons que batem no que está a volta deles e retorna. Com isso eles conseguem obter informações como distância e tamanho do que está a sua frente pelos sons que retornam.

Esquema de como funciona a ecolocalização (sonar) dos morcegos. Isso é uma simplificação. (fonte)


Uma espécie da família do feijão, se aproveita desse sonar para ser polinizada por morcegos. Ela tem uma pétala côncava, especializada em atrair morcegos, produzindo fortes ecos quando o som do sonar bate. Quando essas pétalas são retiradas, as flores são visitadas menos vezes. Porém, não foi mostrado, para essa espécie, que essa pétala consegue fazer com que a planta seja localizada mais rapidamente (quantidade de visitas e velocidade de detecção não são a mesma coisa!) e nem que os ecos dessa pétala se sobressaiam entre todos os outros ecoes da floresta. O que acontece é que as folhas das plantas estão voltadas para várias direções e por causa disso, os ecos são refletidos em várias direções, mudando conforme a posição do morcego que está voando. Pense em uma sala de espelhos, você não vê sempre a mesma imagem enquanto anda, correto? Algo semelhante acontece com os ecos, nesse caso.
Acontece que uma espécie de liana (ou "trepadeira") cubana, que é polinizada por morcegos, tem uma folha, por vezes duas, em forma de pratos em suas inflorescências. Essas folhas tem o "cabo" (nome técnico: pecíolo) que as liga ao galho, torcido, de forma que sempre o lado côncavo das folhas fica voltada para fora, em direção a um possível polinizador. O formato das folhas, por sua vez se parece muito com o de objetos que produzem os tais ecos que não mudam independente de onde o morcego estiver, que falei acima.

A planta do estudo, Marcgravia evenia, de florestas úmidas. A= a folha em forma de prato, B= as flores propriamente ditas e C= bolsas de néctar para os morcegos.

Eles fizeram uma série de experimentos. Primeiro, testaram se os ecos das folhas realmente se mantinham constantes, comparando com ecos de folhas normais e o resultado é que a intensidade deles se mostrou mais constante do que a das folhas normais, permanecendo fortes em diferentes ângulos de incidência. Imaginando a situação de um morcego, essas folhas gerariam ecos intensos com eles em diferentes posições em relação às folhas em forma de prato, enquanto que o que acontece com folhas comuns é que a intensidade do eco que chega ao morcego diminui muito conforme ele se move em relação à folha.
Em seguida tentaram entender como os ecos das folhas em forma de prato mudavam e compararam isso com o das folhas comuns. Chegaram a conclusão que os ecos das folhas em forma de prato tem um "eco assinatura" que se mantém bem constante independentemente da posição do morcego em relação à ela, enquanto folhas normais retornam aos morcegos ecos bem diferentes conforme a posição do morcego em relação à ela muda. De novo, pensando no morcego, isso significa simplesmente que ele vai conseguir reconhecer a folha em forma de prato de diferentes posições, porque ela vai gerar o mesmo eco enquanto ele voa. Já folha normais produzirão ecos diferentes conforme o morcego voa, então não serão identificadas por ele.

Alguns gráficos que eles mostram no artigo. Não se preocupem, não é difícil de entender. No lado ESQUERDO estão (E) a força do eco que retorna da folha comum, em diferentes ângulos de incidência (-80 a 80 graus), repare como existe um pico e uma diminuição brusca e (I) o formato, ou "assinatura" do eco que retorna em diferentes ângulos, veja como como pequenas variações o "jeitão" do eco muda completamente. No lado DIREITO estão a força do eco que retorna da folha em forma de prato em diferentes ângulos de incidência, veja como é bem mais constante que o do lado esquerdo e (J) o formato ou "assinatura" do eco que retorna em diferentes ângulos, de novo, veja como existe um padrão constante com uma variação bem maior nos ângulos de incidência do som.

Esquema de como funciona a folha em forma de prato. (fonte)
Bom, isso tudo eles fizeram só com "modelos", ou seja, pegaram uma folha em forma de prato e uma folha comum, ligaram aparelhos que produzem som e fizeram esses testes. Em seguida, foram pra parte prática.
Pegaram um morcego que come néctar (nectarívoro), da espécie Glossophaga soricina e o treinaram a se alimentar em um alimentador artificial e mediram o tempo que ele levava para encontrar esse alimentador quando o mudavam de posição. Esse alimentador podia ser apresentado aos morcegos: 1) sozinho, 2) com uma réplica de folha comum ligada a ele ou 3) com a réplica de uma folha em forma de prato. Isso foi feito várias vezes.
O resultado foi que os morcegos demoraram mais para achar o alimentador sozinho e o alimentador com réplica de uma folha comum, enquanto que o alimentador com a réplica da folha em forma de prato foi encontrado sempre mais rápido.

Glossophga soricina em um alimentado artificial (esquerda) e na planta estudada no trabalho desse post (direita). (fonte da foto da esquerda e da direita)

Bibliografia:

- Simon, R., Holderied, M.W., Koch, C.U. & von Helversen. 2011. Floral acoustics: Conspicuous echoes of a dish- shaped leaf attract bat pollinators. Science 333: 631- 633.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Polinização e campos elétricos

Estava fuçando na internet, sobre mamangavas, e li que elas conseguem sentir campos elétricos. Fui atrás da referência, li e achei bem interessante. Nunca ia imaginar isso e cada vez mais vejo como nós somos bem limitados em se tratando dos nossos sentidos. Somos "inteligentes" (só falta aprender a usar melhor isso), mas estamos longe de estarmos no "topo" em outras coisas. Tem bichos que vêem as cores com comprimentos de onda que não enxergamos; que escutam sons que não escutamos e por aí vai.
Vou falar das mamangavas hoje. Deixo pra depois uma outra coisa extremamente interessante sobre morcegos e polinização.
As flores querem ser polinizadas. Quando existe polinização cruzada, coisa que os insetos fazem muito bem, a quantidade e/ou qualidade dos frutos produzidos costuma ser maior. Então as plantas "inventaram" maneiras de deixar suas flores atrativas para os polinizadores. Elas tem meios de chamar atenção de insetos para elas. Pode ser através de cheiro, de som, cores - tanto as visíveis, como as flores do Flamboyant (Delonix regia), vermelhas, com uma pétala branca, vermelha e amarela, quanto as invisíveis, como padrões de UV, que não vemos, mas muitos insetos enxergam -... e até campo elétrico. Mas até hoje novos tipos de "convites" estão sendo descobertos.



Como nós vemos as flores, à esquerda e como insetos vêem, à direita, quando as flores são expostas a UV, lembrando que o Sol emite luz UV, então de dia é assim que as flores são vistas por bichos que enxergam UV; nós é que precisam de uma câmera especial.... Bela diferença, não? (fonte: http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-473897/A-bees-eye-view-How-insects-flowers-differently-us.html)

E quando há mais de um tipo, por exemplo, cheiro e cor, a flor chama polinizadores mais eficientemente.
Bom, abelhas geralmente ficam positivamente carregadas enquanto voam, enquanto as plantas costumam ficar carregadas negativamente. Essa diferença costuma facilitar a transferência de pólen do inseto à flor e consequentemente, a polinização e a "carga" da flor muda quando o polinizador pousa e o pólen é transferido e a planta polinizada. Como qualquer tipo de sinal que aumente a eficiência com que a flor é encontrada vai ser mutuamente benéfico - pro inseto porque ele vai ter comida e pra planta porque vai ser polinizada - é de se esperar que acabe sendo explorado.
Isso que os pesquisadores foram verificar. Se as mamangavas (Bombus terrestris) conseguem perceber e usar essas informações sobre cargas elétricas, campos magnéticos e tudo o mais.
Primeiro os pesquisadores quiseram confirmar se as mamangavas realmente ficam positivamente carregadas ao voar. Chegaram a conclusão que sim: 94% de 51 abelhas analisadas tinham carga positiva. Após isso, quiseram descobrir se a mamangava (carga positiva) produz alguma alteração na flor (carga negativa), ao polinizar e mais uma vez viram que sim. Portanto, uma flor que já foi visitada fica "marcada" e outras mamangavas vão perceber e evitar essa flor, desde que essa diferença de carga possa ser percebida e esse foi o terceiro passo do estudo.
Para isso, primeiramente os pesquisadores montaram duas flores falsas. Uma com uma carga de 30 V, que tinha uma recompensa de sacarose. Outra flor era neutra (0V) e tinha quinino (um negócio ruim demais!). A ideia é que as abelhas aprendessem a diferenciar uma flor com voltagem X e com "néctar" gostoso, sacarose e outra flor, com voltagem Y e "néctar" ruim, porque em todos os outros aspectos as flores eram idênticas.
Ao longo de 50 visitas de mamangavas às flores, houve um aumento progressivo das visitas às que tinham sacarose, chegando a uma taxa de "acerto" de 81% nas flores com essa substância. Depois disso ambas as flores foram deixadas a 0V. Depois disso, olha que legal, as abelhas não mais distinguiam entre as flores, a porcentagem de "acertos" a flor com sacarose, caiu para 54%, o que na prática (estatisticamente), não pode ser considerado diferente de 50%, que é a mesma coisa que as possibilidades de sair cara ou coroa jogando-se uma moeda honesta para cima. Depois os pesquisadores fizeram a mesma coisa, só que com as flores carregadas com 10V (na outra eram 30V, lembram?) e as abelhas já não conseguiam distinguir entre as flores boas (sacarose) e ruins (quinino) e a mesma coisa aconteceu quando deixaram as duas a 0V de novo.


Aqui estão uns gráficos, pra facilitar. No (A), a gente vê a quantidade de escolhas certas (sacarose) que as mamangavas fizeram ao longo do tempo (número de visitas). No ON é onde as flores tinham diferença de voltagem e no OFF, vemos quando as flores foram colocadas na mesma altura e ficaram ambas com 0V. Quadrado vermelho foi no primeiro experimento (30V) e azul no segundo (10V). Em (B) a porcentagem de acertos no primeiro experimento, com a diferença de voltagem de 30V em ON e sem em OFF, o mesmo para o segundo experimento, com 10V.

Continuando...
Assim como vocês viram padrões invisíveis a nós nas flores iluminadas com UV lá em cima, também existem campos elétricos de diferentes padrões que flores produzem. Esses padrões podem ser vistos quando os pesquisadores cobrem as flores com partículas eletricamente carregadas. É mais difícil de ver que na UV, mas reparem que há diferenças na "coloração", que na verdade são diferenças no campo elétrico. A diferença de coloração é na verdade uma representação apenas, porque não sentimos esses campos elétricos.

Metade superior, sem nada e metade inferior, com as partículas carregadas. (fonte: http://blog.physicsworld.com/2013/02/22/flowers-and-bees-communicate-using-electric-fields/)

Então os pesquisadores quiseram ver se as mamangavas conseguiriam distinguir entre os campos elétricos de flores "boas" e flores "ruins". Para isso, criaram duas flores artificiais, com campos elétricos diferentes. Ao longo de 40 visitas, a porcentagem de acerto foi de 70% e depois de os pesquisadores igualarem os campos elétricos das flores boas e ruins, os acertos caíram pra 47%, de novo, indistinguível estatisticamente de 50%.
Por fim, em outros estudos foi provado que quando uma flor "chama" os polinizadores de mais de uma forma, os efeitos se somam e os polinizadores são mais eficientemente atraídos. Então, os pesquisadores quiseram verificar se com campo elétrico acontece a mesma coisa. Para isso, usaram informações visuais além do campo elétrico. Eram 2 flores, uma com uma cor e um padrão de campo elétrico com solução de sacarose e outra com outra cor e outro campo elétrico e solução de quinino. Aí separaram os efeitos: o número de visitas necessário para que as mamangavas conseguissem 80% de acertos usando apenas informações visuais (cor) e informações visuais + campo elétrico. O resultado foi que usando apenas informações visuais, as abelhas precisaram de 35 visitas para aprender o que é uma flor boa e o que é uma ruim, enquanto que com informações visuais e campo elétrico, foram necessárias apenas 24 visitas.
Resumindo: 1) As mamangas conseguem distinguir as cargas elétricas das flores que foram polinizadas e das que não foram. 2) Elas também conseguem perceber os padrões dos campos elétricos gerados pelas flores e 3) Se o campo estiver associado a outros tipos de sinais, as abelhas aprendem a discriminar entre flores mais rápido.

Ah sim! E aqui está o Bombus terrestris! É uma abelha social, que foi introduzida em vários lugares, inclusive Japão e parece estar causando problemas por lá. Não existia no Brasil, pelo que sei, mas chegou aqui também. Fazem ninhos no chão.



Bibliografia:

- Clarke, D., Whitney, H., Sutton, G & Robert, D. 2013. Detection and learning of floral electric fields by bumblebees. Science 340: 66-69.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nem tudo são flores

Li na edição número 137 (outubro de 2013) da revista Scientific American Brasil, uma reportagem muito legal, sobre abelhas. Procurei até não poder mais, pra ver se achava essa reportagem online, para indicar aqui (e no facebook) mas não encontrei. Procurei em inglês e nada também. Resolvi escrever pra SciAm Brasil e não achei onde mandar sugestões. Bom, vou tentar resumir aqui. O título da reportagem é (em português): "O Retorno das Abelhas Nativas".

"Mason bee" (Osmia lignaria) espécie já comercializada para polinização. (foto:http://www.agf.gov.bc.ca/apiculture/factsheets/506_osmia.htm)

Quem de alguma forma se interessa por abelhas, polinização e essas coisas, já deve deve ter ouvido falar da mortandade absurda de abelhas que tem ocorrido lá fora. Chama CCD (Colony Collapse Disorder - ou algo como desordem do colapso de colônia). Ela está preocupando bastante os agricultores e cientistas. Ela não é nova, mas em 2006, um apicultor perdeu 360 das 400 colmeias que tinha... as caixas tinham pólen, mel, crias... mas nada de abelhas. Elas saíram das caixas e não voltaram mais. Depois disso (que foi no outono), até o inverno seguinte alguns apicultores chegaram a perder 90% das colmeias.
Até hoje, não se sabe ao certo o que causa esse problema, mas algumas coisas parecem contribuir, como fungicidas, neonicotinioides (pesticidas), mas o que parece ser o principal culpado, são carrapatos do gênero Varroa, na reportagem eles dizem que na Austrália, onde os neonicotinioides são amplamente usados, mas onde não existe esse carrapato, as colônias não estão tendo esse problema da CCD. Esses carrapatos, além de sugarem o "sangue" das abelhas, ainda são vetores de doenças, disseminando vírus para as abelhas.
Um outro problema, é a questão das monoculturas. Por quê? Basicamente, superpopulação e mistura de causadores de doença de diferentes locais. Eles dão um exemplo bom: imagine um monte de criança num jardim de infância juntas, cada uma misturando seus agentes patogênicos. Isso acontece porque quando as grandes culturas dos EUA estão em floração, como as amendoeiras, as abelhas são "contratadas" para polinizar. Como as monoculturas são enormes (quem puder, veja o documentário "mais que mel", ou "more than honey", vale muito a pena), muitas abelhas, de diferentes regiões do país (e portanto com diferentes "cepas", ou "tipos" de doenças, se juntam). Mas o ser humano nunca causa um tipo só de problema. Com a sua tara por dinheiro, quer transformar tudo, inclusive seres vivos, em máquinas de fazer dinheiro. Quando não é época dessas grandes floradas, as abelhas não tem tanto alimento, então os apicultores alimentas as abelhas com água açucarada, xarope, milho... o que com certeza é muito menos adequado que pólen e não só pólen, como pólen de variadas espécies vegetais. As abelhas basicamente ficam a base de fast-foods quando não estão em uma monocultura (de qualquer forma, em uma monocultura a dieta delas, apesar de natural, estará longe de ser variada...). Sem contar o estresse pras abelhas de estar cada hora em uma região.
As abelhas nativas (sim, os EUA também tem abelhas nativas; as Apis não existiam lá) foram esquecidas. Na Califórnia existiam 1.600 espécies. Mas como era de se esperar, suas populações diminuíram e algumas espécies até sumiram de alguns estados americanos. Os pesquisadores estão tentando bolar maneiras de "chamar" e manter as espécies nativas de lá perto das plantações o ano todo. Estão começando a fazer testes, por exemplo, com diferentes espécies nativas dos EUA, que floram em diferentes épocas do ano, em "manchas" no meio das plantações, para que as abelhas nativas tenham lugar para ficar e alimento durante todo o ano.
Isso está sendo feito porque a ficha caiu (para muitos, pelo menos) que depender de só um tipo de polinizador (as Apis, que estão com problemas sérios, como sempre, com nossa contribuição) não é bom, porque se ele some, as lavouras vão diminuir muito sua produção ou até mesmo parar. Na China, onde alguns lugares não tem mais polinizadores por causa de perda de habitat e aplicação indiscriminada de pesticidas, fazendeiros contratam pessoas para ficarem com (pasmem) pinceizinhos, polinizando flor por flor (isso é mostrado no documentário que falei).
Algumas dessas abelhas alternativas já são até comercializadas!
Alguns agricultores lá fora já estão investindo em ter culturas de plantas nativas para os polinizadores nativos em suas plantações e o Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos subsidia de 50 a 90% dos custos para isso.
E nós, brasileiros, o que podemos fazer? Nós temos muitas abelhas por aqui. Podíamos "acordar"... aprender com o trágico exemplo dos Estados Unidos. Temos as Meliponini, que são sociais, podem ser criadas em caixinhas (em sua maioria) e produzem mel... mas também temos abelhas solitárias (que não vivem em colônias com divisão de tarefa entre abelhas e com muitas gerações juntas), mamangavas de diferentes tipos (essenciais em cultivos de maracujá), abelhas de suor, abelhas de orquídea... temos abelha de todo tipo.
Ao mesmo tempo, ia ser bom tomar cuidado e não transformar essas outras abelhas em novas "máquinas". Podíamos aprender a lição...

Bibliografia:

- Rosner, H. 2013. O retorno das abelhas nativas. Scientific American Brasil 137: 64-69.
Procurem e assistam o documentário More than Honey.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um pouco sobre polinização e abelhas sem ferrão

As abelhas sem ferrão são excelentes polinizadoras. Na postagem anterior falei sobre polinização como um serviço ambiental. Não tem como falar extensivamente de tudo aqui. Até porque não sou nenhum especialista no assunto e os próprios especialistas ainda debatem algumas coisas, mas faço o que posso.
Agora quero falar um pouco das nossas abelhas sem ferrão.
Tem uns artigos legais que tratam do assunto. Porém, a maioria é focada em plantas cultivadas. Afinal, infelizmente o ser humano só age quando mexe no bolso... se queremos preservar algo, dificilmente vamos conseguir apelando pro bicho em si; o jeito mais garantido é usar coisas que podem gerar lucro (ou impedir que prejuízos aconteçam).
As abelhas sem ferrão tem algumas características interessantes para serem usadas como polinizadoras em colheitas. Por exemplo, 1) elas são muito abundantes na América do Sul, 2) formam colônias "perenes", ou seja, colônias que duram por muito tempo e geralmente não hibernam, ficando ativas o ano todo e consequentemente "funcionando" (como polinizadoras) também o ano todo, 3) um negócio chamado "polilectilia", que significa que as abelhas usam pólen de muitas espécies diferentes, 4) o fato de elas terem a chamada "constância floral", que é a tendência que as abelhas apresentam de em cada viagem recolherem pólen de apenas uma espécie vegetal. Isto é, ela sai uma vez e colhe só pólen em pitangueiras até encher a corbícula e volta pro ninho, descarrega a carga e sai outra vez. Nessa segunda viagem, se ela resolve visitar um assa peixe, ela vai colher preferencialmente pólen de outros assa-peixes nessa viagem. 5) A comunicação delas também ajuda.... e assim por diante. Essas são características compartilhadas com as abelhas com ferrão, mas elas ainda possuem outras, que as abelhas com ferrão não tem: 1) Não ferroam! 2) Se você multiplica abelhas sem ferrão por causa das plantações , está contribuindo com a fauna (e flora) brasileira, 3) abelhas sem ferrão não conseguem "fugir", como as Apis, já que as rainhas perdem a capacidade de voar.
Além de tudo o que foi falado, vale dizer que cerca de metade das plantas tropicais economicamente importantes, são de áreas em que as abelhas de ferrão não ocorrem naturalmente. Por exemplo, Austrália e os "neotrópicos" (basicamente, as Américas do Sul e Central). Metade dessas, por sua vez, provavelmente é polinizada por abelhas. Mas isso não é uma limitação para culturas exóticas. Essas abelhas conseguem "aprender" quais outras plantas são boas fornecedoras de alimento, como aconteceu com o eucalipto, que não é natural do Brasil, mas é extensamente visitado pelas abelhas sem ferrão.
Finalmente achei figuras legais pra colocar... então aí vai:

Culturas polinizadas por abelhas sem ferrão:

Bibliografia:

- Heard, T.A. 1999. The role of stingless bees in crop pollination. Annual Review of Entomology 44: 183- 206.
- Slaa, E.J., Sánchez-Chavez, L.A., Malagodi-Braga, K.S & Hofstede, F.E. 2006. Stingless bees in crop pollination: practice and perspectives. Apidologie 37: 293- 315.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Serviços ambientais: polinização

Existe uma coisa chamada “serviço ambiental”. Talvez algumas pessoas ainda nunca tenham ouvido falar disso, mas é um termo relativamente conhecido, traz a ideia de que o ambiente é importante. De forma simples, significa “os benefícios da natureza para famílias, comunidades e economia” ou “processos naturais através dos quais os ecossistemas suportam e possibilitam a vida humana”. Alguns exemplos são a regulação do clima (temperaturas mundiais, precipitação), controle biológico (por exemplo, regulando populações de pragas de lavoura. Em alguns lugares se criam vespas em estufas, pra que elas controlem as pestes que por ventura entrem) e controle de erosão do solo e purificação da água.
Um desses serviços é o de polinização. Achei um artigo legal sobre o assunto e vou usar informações dele daqui pra baixo (é o de 2010, na bibliografia). Não fui eu quem saiu pesquisando várias fontes; estou apenas pegando informações que acho interessantes.
Foi calculado que das estimadas 25.000 espécies de plantas com flores do mundo, cerca de 90% é polinizada por animais, sendo a grande maioria deles, insetos. E calculou-se (apesar de esses cálculos serem complicados) que dos 33 trilhões de dólares anuais que o ambiente nos “gera” por meio dos serviços ambientais, por volta de 112 bilhões vem da polinização. Dentre os insetos, por sua vez, as abelhas provavelmente são os polinizadores mais importantes. Por conta dos problemas atuais, por exemplo aquecimento global e perda de habitats, algumas iniciativas foram criadas, como a “International Pollinator Initiative” (existe um “braço” dela no Brasil).
Um dos insetos mais conhecidos e mais usados para a polinização é a abelha com ferrão (Apis mellifera). Ela consegue aumentar a produção em 96% das espécies utilizadas na agricultura que são polinizadas por animais (o nome “técnico” é zoofílicas). Além das plantas cultivadas, obviamente, as Apis são muito importantes para plantas “selvagens”, e para ambientes naturais, como florestas. O declínio que as Apis vem sofrendo em vários lugares, como EUA e Europa, gera uma grande preocupação a respeito de quais efeitos esse declínio pode ter. E apesar de o declínio de algumas espécies (como das abelhas com ferrão e as “mamangavas” do gênero Bombus) ser documentado, para outras espécies de polinizadores, incluindo outras abelhas, é escasso.
Além do problema que um declínio das populações de polinizadores causará para as nossas lavouras, ainda há a importante questão das plantas não cultivadas!!

Plantas “selvagens”:

Estou pegando emprestado o termo “selvagem” aqui. Estou chamando de “selvagem” plantas não cultivadas. Pense em uma floresta, na quantidade de plantas que tem ali, que produzem flores, e que não cultivamos em nossas plantações. Pense em ambientes “naturais”, em florestas...
Um declínio nos polinizadores pode afetar comunidades naturais, criando dificuldades para plantas polinizadas por animais. O que seria um “ciclo vicioso”: Diminui a quantidade de polinizadores. Plantas que dependem deles começam a se reproduzir menos e as populações delas começam a diminuir. Uma menor quantidade de plantas que são polinizadas por animal, por sua vez, pode fazer com que os polinizadores tenham menos alimento disponível e comecem a declinar ainda mais. Isso seria um problema particularmente grande para as plantas que tem o que chamamos de “polinização cruzada” (ou auto-incompatíveis). Ou seja, plantas que necessariamente precisam de dois indivíduos para gerar frutos e sementes. Pense em um maracujá. As populações dessas espécies geralmente começam a declinar junto com as dos seus polinizadores.

Aproveitem e dêem uma olhada no site Sem Abelha Sem Alimento!

Bibliografia:

- Costanza, R., d’Arge, R., de Groot, R., Farber, S., Grasso, M., Hannon, B., Limgurb, K., Naeem, S., O’Neill, V., Paruelo, J., Raskin, R.G., Sutton, P. & van Den Belt, M. 1997. The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature 387: 253- 260.

- Potts, S.G., Biesmeijer, J.C., Kremen, C., Neumann, P., Schweiger, O. & Kunin, W.E. 2010. Global pollinator declines: trends, impacts and drivers. Trends in Ecology and Evolution 25(6): 345- 353.